O pós-eleitoral!
A análise do pós-eleitoral é como administrar uma vacina quando o doente está curado (para utilizar uma linguagem que coincide com os tempos que vivemos). Pode servir para o futuro, mas por ora, o efeito será nulo. Mas a verdade é que anda um país inteiro a tentar perceber o que se passou no dia 24 de janeiro na eleição presidencial, e o mesmo país a querer desenhar o horizonte futuro a partir dos resultados de domingo.
Começo um pouco lá mais atrás, e, por agora, foco-me apenas em analisar os candidatos que estavam em sufrágio. E qual a reflexão que, para mim, pesou sobre cada candidatura no momento de votar? Comecemos pelo reeleito Presidente. Poderemos, em consciência, votar em alguém que, na fase final da campanha nos levantou dúvidas sobre como procederia se confrontado com a possibilidade de dar posse a um Governo que incluísse o CHEGA? Isto depois de ter anuído a esta circunstância no caso do Governo Regional dos Açores? Marcelo pode ter sido o garante de uma certa estabilidade governativa no país e mostrou um QB de lealdade perante Costa, mas, ao inverter o discurso que fez durante os debates e entrevistas de campanha, mostrou um candidato calculista e atento apenas às "sensibilidades" do eleitorado, e não à defesa da Constituição e do país (não quero com isto dizer que o CHEGA é bom para o país, mas a coerência e a verdade são).
Ana Gomes, para mim, foi sempre o "sistema" e o seu contrário. Ou seja, esteve com o "sistema" e sempre procurou criticar o sistema. Deixou claro que não tinha um pensamento profundo sobre aquilo que o país precisa em relação ao mais alto cargo da nação. Perdeu-se em explicações sobre percursos, "amizades" e, não respeitaria a Constituição e a decisão popular se a mesma incluísse o CHEGA. O passado e afirmações como: "o estilo múmia paralítica", deve servir de exemplo a outros que agora começam a
fazer a "estrada" presidencial.
O André, foi igual a si próprio. Incoerente, populista e a explorar os medos e as fragilidades de uma sociedade exaurida de sacrifícios feitos na última década. Encostou os candidatos da esquerda às cordas quando os confrontou com a possibilidade de fazer parte de uma solução de Governo futuro. Deve ter rido muito quando escalpelizou o pós debates. Está nos antípodas das minhas convicções, pelo que, não se me oferece dizer muito mais.
João Ferreira, procurou ser a lufada de ar fresco, mas perdeu-se no discurso estafado do PC. Não conseguiu (ou não quis, ou não o deixaram) apresentar um discurso que cativasse. Repetiu até à exaustão aquilo que o PC diz todos os dias, pelo que, não se mostrou como alternativa. Para umas presidenciais espera-se mais, muito mais. Centrou o
discurso na Constituição como que a querer afirmar que esta está em risco face às novas forças políticas que surgiram no país. Pode até ter razão, mas precisava ter-se libertado de outros "pecados" mundiais, de outras "democracias", para poder afirmar ao que vinha.
Marisa, sem a chama de há cinco anos. Entrou, trapalhona, na armadilha que AV lhe estendeu. Disse claramente, para bom entendedor, que não cumpriria a Constituição que juraria cumprir se ganhasse as eleições. Parece demonstrar que, desta vez, era por frete que se fazia à estrada. Impacientou-se com a falta de educação de AV. Este provocou Marisa com todos os pecados do BE. E Marisa não mais encontrou o seu Norte. Não conseguiu convencer os portugueses que o seu partido, apesar do Orçamento de Estado, pode voltar a merecer a confiança dos eleitores.
O Tiago Mayan. Afirmou por mais do que uma vez que estava a candidatar-se em nome de muitos portugueses que não se reviam no atual espetro político. Mas Tiago, as eleições eram presidenciais, não eram legislativas. Logo, o que estava em causa não era um Governo, mas sim quem representa a República Portuguesa, garante a independência nacional, a unidade do Estado e o regular funcionamento das instituições democráticas.
Fazer uma campanha presidencial a afirmar tudo quanto o Governo fez de mal na sua perspetiva liberal, é descontextualizado. Também aqui me situo nos antípodas do pensamento político.
Vitorino Silva, o homem que já foi socialista e que quer trazer para o léxico político a simplicidade do discurso do homem comum. Fica a ideia de que Vitorino sabe o que não quer e o que não gosta, mas no restante, Vitorino apresenta uma maior dificuldade em
expressar ao que vem. De uma coisa é certa, o seu estilo e discurso não terão grandes dificuldades num contexto autárquico, seja pela experiência que já teve, seja pela proximidade que facilmente granjeia.
Concretizada esta reflexão, eu votei em consciência!